Tragédia
À espera de respostas, um sonho destruído
A morte da pequena Antonella antes mesmo de fazer o procedimento nos olhos, que prometia ser último passo antes da alta hospitalar, vira inquérito policial
Bastaram 28 dias longe da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Neonatal e da Semi-intensiva para que a pequena Antonella Kerchiner de Souza passasse a ser conhecida como a menina dos laços. A família estava em êxtase. Depois de uma espera de 16 anos e 11 bisnetos, finalmente, havia chegado uma guria. A felicidade durou exatos dois meses. E virou dor e indagações ainda sem respostas.
Antonella tinha a orientação de fazer uma fotocoagulação, um procedimento para tentar preservar a visão ameaçada pela retinopatia em nível já avançado. "Se soubesse que a minha filha não ia voltar, jamais teria deixado ela ir fazer", sustenta Karen Cardoso Kerchiner, 30. "Disseram que ela voltaria no mesmo dia pro quarto, que era algo corriqueiro, e destruíram o sonho de toda uma família".
A bebê nem chegou a realizar o procedimento - contam os pais. Era início da tarde de segunda-feira, 12 de abril. O casal foi para o corredor da UTI, para acompanhar de perto e aguardar por informações. Em seguida veio a notícia: o quadro era grave. Menos de 12 horas depois, na manhã do dia 13, a confirmação: Antonella não receberia alta do Hospital Universitário São Francisco de Paula da Universidade Católica de Pelotas (HUSFP-UCPel). Não encontraria o irmão Arthur, de quatro anos, que a aguardava ansioso em casa, para mostrar os carrinhos que, volta e meia, ele pedia para a mãe levar para o hospital para a mana poder 'brincar'.
"Arrancaram um pedaço da gente. É uma dor, uma angústia", resume o pai Rition Ferreira de Souza, 31, sem conter as lágrimas. O casal repassa detalhe a detalhe e não encontra explicações: o que ocorreu e por quê? Houve falha no processo de anestesia geral? O que provocou a parada cardíaca na pequena Antonella? Quem integrava aquele plantão? São muitas perguntas e nenhuma resposta que possa devolver os planos tão coloridos que estavam por vir.
A posição do hospital
O HUSFP-UCPel respondeu aos questionamentos através de nota enviada pela assessoria de imprensa e limitou-se a afirmar que abriu processo sindicante e aguarda o laudo da necropsia para manifestação oficial sobre o caso.
A palavra da Polícia Civil
A titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Pelotas, Lisiane Mattarredona, assegura que dará prioridade máxima ao caso. A delegada também espera o laudo da necropsia e já pediu urgência ao Instituto Geral de Perícias (IGP). A família deve ser ouvida na próxima semana. "Queremos melhor compreender este cenário todo e poder tirar uma conclusão de um indiciamento ou não indiciamento".
Era só mais um passo antes de ir para casa
Antonella nasceu em 13 de fevereiro, com 1,685 quilo e 40 centímetros. Com apenas 32 semanas de gestação, entrou para o time dos prematuros guerreiros. Enfrentou infecções, apneia, transfusão. E, finalmente, estava mais perto de ir para casa. Já estava com 3,160 quilos e 50 centímetros. "Ela era linda", resume a mãe.
Na cidade de Cerrito, tudo preparado para recebê-la. Agora, o quarto já foi desmontado e, aos poucos, as roupas - grande parte com etiquetas - começam a ser doadas. O mano Arthur olha para o céu e procura pela estrelinha mais brilhante e, na inocência infantil, já convidou a mãe para uma viagem ao espaço sideral para encontrá-la.
"Eu quero pensar que Deus vai reservar o melhor para ela. A minha princesa estará sendo bem cuidada", crê, como a serenar o coração.
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